outono

by joão tamura

outono cover art
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outono

credits

released 01 January 2010
Eu e Uma Rapariga Que Conheci - Outono

01. Outono
02. A Rapariga Gato e a Aldeia de Nova York
03. Postais de Torino
04. História de uma Insónia
05. Gigantes
06. O Senhor Elefante
07. O Ladrão de Bicicletas
08. Manual de Instruções
09. Peixinhos Dourados
10. O (Pouco) Fabuloso Destino de João Tamura
11. Silêncio
12. Uma Vila Chamada Gôndola
13. Amor Para Amadores

Outono contado por João Tamura e Cláudia Santos.
Gravado num quarto com 2 metros de largura e 4 de comprimento.
Pintado e riscado por João Tamura e Cláudia Santos.
Totalmente independente.

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Track Name: 01. outono
01. Outono.

Eu seria feliz se soubesse desenhar
Ter algo para ti, para além desta falsa arte
Deixa-me viver em filmes, assim é bonito amar-te
Armar-me em Big Fish, só para poder contar-te
Mentiras... Sobre a beleza da pele nua
Ser a presa nesta rua, por um beijo à luz da chuva
E é engraçado como muda
A cor duma cidade enquanto corremos nus na lua
E as luzes... São a coisa mais bela que existe
Observar o mundo pela janela da limousine
Postais duma juventude, cabelo nos olhos, sorriso triste
Polaroids de S. Francisco, rascunhos dum paraíso...

São as moedas que me restam, borboletas no bolso
American Beauty versão Bela e o Monstro
Botões desapertados numa paixão de BD
Corações de cartão afogados em café
Superstars à chuva, ela vagueia nua na cela
E ela mascara rugas, hoje a pele é uma tela
Prazer em miniatura dentro de meias de renda
Talvez um dia fuja e chegue a Paris, Texas

Se eu pudesse estar
Sem saber o que viver
Espero por ti... A nu
Track Name: 02. a rapariga gato e a aldeia de nova york
02. A Rapariga Gato e a Aldeia de Nova York.

Tu estás nesta cidade
Com fumo a sair por todo o lado
Mas não sabes o que fazer
Continua a andar até a noite desaparecer
Porque estás em Nova York
Track Name: 03. postais de torino
03. Postais de Torino.

Por favor olha para o chão
Já só tenho estas rosas, não aguento a decepção
Murchas... Como a vida num ecrã
Balões em cada mão para fugir ao amanhã
Ainda te lembras de mim?
Espera, eu pinto a cara para não veres que envelheci
Calma... Por favor não fujas
As asas estão rasgadas, o meu coração tem ferrugem
Querida, hoje não janto, vou construir um baloiço
E a vida foi-se em Outonos no meu rosto
Tudo... Para além desta janela
Quero ver o mundo nesta velha bicicleta
Mas não hoje... Por isso escrevo, eu preciso
De contar estas histórias para alguém se lembrar de mim
Armado em Murakami nestes postais de Torino
Track Name: 04. história de uma insónia
04. História de uma Insónia.

História de uma insónia após um infeliz aniversário
A casa volta a estar vazia e ela diz para me ir deitar
E a Cláudia nunca veio... Será que se perdeu na vila?
Ou não passo dum Frankenstein dentro dum pijama às riscas?
Track Name: 06. o senhor elefante
06. O Senhor Elefante.

Sempre que algum dos nossos vizinhos fazia obras em sua casa e o barulho destas deslizava, despreocupado, por toda a escadaria do prédio, meu pai alegremente me dizia:

- Um dia há-de ser a nossa vez.

Esperançando, assim, meu pequeno coração logo se cinematografava com imagens de belas e imponentes paredes substituindo, aquelas outras que protegiam a nossa simples vida do frio e da chuva, cobertas de manchas e infiltrações, em que um cinzento sujo substituía um branco original, e onde meu pequeno corpo se encostava todas as tardes.

Vários tempos passaram, e o risquinho que, todos os anos, no dia do meu aniversário, a minha avó traçava numa das paredes do meu pequeno quarto para ver o quão homem me estava a tornar, aumentava, deixando-me um sorriso alegre e confiante nos lábios. Ainda me lembro daquele vinte e quatro de Abril, em que atingi o meu objectivo de elevar o meu olhar a mais de um metro e quarenta do chão. Após vinte minutos e incontáveis berros de alegria e puxões da minha avó na manga da minha camisola laranja, para me levar de volta a casa, já todo o bairro o sabia. Nunca me havia sentido tão feliz.

Cinco anos, talvez, foi o tempo que passou até que me pai finalmente arranjou dinheiro suficiente para remodelar aquele pequeno mundo que eu, ele e minha avó partilhávamos. Tinha cerca de treze anos, creio eu, quando as obras se iniciaram e os homens fardados de azul e castanho começaram a entrar e a sair freneticamente pela porta do nosso mundinho, partindo e escavacando o meu pequeno lar, ignorando-me a mim e à minha avó, como se não existíssemos, guiados por um homem de camisa desabotoada e calças de ganga sujas, dando orgulhosas e sorridentes instruções sobre o quê e como haveriam de fazer - partir - certas coisas.

A meio desse dia me lembro que esse tal homem – meu pai, transformado em super engenheiro/mestre-de-obras – me disse numa voz orgulhosa e bem-disposta, após despentear meus cabelos com a sua grande mão, coberta de pó, num gesto algo simpático e paternal:

- Eu não disse que um dia haveria de ser a nossa vez?

- Pois disse Papá. Pois disse…
Track Name: 07. o ladrão de biciletas
07. O Ladrão de Bicicletas.

Uma vez um Senhor Pau levantou-se mesmo a minha frente. Olhar desconfiado, como que ofendido pela minha tímida presença, desmontou as suas patinhas e, fingindo ser aranha, pateou dali para fora.

Sabia-me a casa quando ouvia os passos do Papá no corredor. O seu ressonar dava-me colo. Embalava-me. Era a minha história para dormir. Ontem agarrei um pirilampo. Minha mão tornou-se mundo. Certo dia aprendi a beleza dos corredores de sapatos e camisas que desfilavam pelos passeios enquanto bicicletava vila fora.

- Mamã, sabias que estrelas são cozinhadas a espingardas? – Perguntei-lhe certo dia…

- Teus sonhos não cabem nesta casa – Beijou-me a testa e na minha pequena mão plantou um mapa e vinte e cinco dólares.

Ela chamava-se História. Eram as rugas que contavam os seus contos. Bengalas são para doença, dizia ela. Eu me seguro nos meus sonhos.
Track Name: 08. manual de instruções
08. Manual de Instruções.

Não sei o que fazer
Para chegar perto de ti
Para me deixares entrar
Não olhes, não notes, não reages
Para te ver, preciso de escapar

Porque é que a lua me segue até casa?
É uma boneca trapos que vem sem manual nem caixa
O meu mundo de plasticina rói quando ela perde a calma
Viro marinheiro de barro numa tempestade de copo de água
Track Name: 09. peixinhos dourados
09. Peixinhos Dourados.

Tinha eu oito anos quando o meu peixinho dourado se adormeceu de barriga para o ar pela primeira e última vez. Após cinco minutos de inúteis receosos toques no seu corpo adormecido, o autoclismo da sanita do Papá engoliu-o para sempre. O Papá disse que aquele seria o seu novo aquário. A Vovó disse que ele estava no céu.

Na altura o Vovô sabia tudo, por isso, naquela tarde de Inverno, perguntei-lhe se o peixinho estava a chorar, já que gotas escorriam céu abaixo, molhando toda a cidade. A sua resposta foi um abraço e um triste sorriso. Se calhar, afinal, o Vovô não sabe tudo – pensei eu baixinho.

Hoje, umas quantas rugas mais tarde, ainda me lembro do tal bichito. O pobrezito sempre me pareceu triste - a sua boca formava um U, virado para baixo - o que era, para mim, um claro sinal da sua infelicidade, já que o mesmo acontecia aos bonecos a dois tons que viviam dentro daquela caixinha de plástico que um dia o Papá colocara na sala.

Carnavais foram correndo em fatos de homens-aranha. Aniversários despediam-se em cada vela acrescentada àquele campo de futebol com relva de mentiras doces. Jornais e laços embrulhavam Natais em caixas oferecidas em noites agasalhadas e frias. Divórcios e gritos corriam casa fora, batendo nas portas e saltando nos corredores, trancando-me no quarto, debaixo de lençóis e cobertores. A vida soava-me fria. Chegava-me distante, em sussurros febris. A Mamã poucas vezes estava. O Papá tinha ido comprar cigarros. Sempre. E, apesar da minha boca não se desenhar num U, dando uma cambalhota, também eu me parecia triste quando demorava os meus olhos naquele sujo espelho pendurado na casa de banho que engoliu o meu peixinho para sempre.

Quando a guerra chegou a casa os dois exércitos começaram a jogar fora. Malas e palavras eram armas, e uma fortaleza foi construída para separar os dois lados da cama do quarto grande. Inconscientemente, os papás viraram o meu quarto, castelo – o meu castelo. Lá, Tolkien e Exupéry tornaram-se os meus melhores amigos. E quando esses são os teus melhores amigos, de uma forma ou doutra, recreios viram campos de batalha, e primeiros dias de aulas transformam-te em alvo de pontarias para meninos grandes.

A Mamã chegava sempre tarde a casa dos Vovós. Lá, esperava-a, espezinhando impacientemente o chão da cozinha, como se a culpa fosse dele.

- Ela há-de chegar, não te preocupes. Queres comer alguma coisa? – Perguntava-me a Vovó, quando olhava os meus pezinhos atarefados, como se todo o problema do meu mundinho se resolvesse saboreando seus petiscos. Puxava cabelos e rebolava pela sala. Fazia de chato para o Vovô e usava as saias da Vovó como transporte, mas nem mesmo assim a Mamã chegava.

Já a lua me bisbilhotava alta, mal escondida, fingindo ser avestruz, naquele mar virado ao contrário e pintado de preto, quando a Mamã chegava.

- Hoje já não há tempo para brincares – Dizia a Mamã, agarrando-me a mão, enquanto descíamos as escadas do prédio.

- Bolas! – Pensava eu baixinho…
Track Name: 10. o (pouco) fabuloso destino de joão tamura
10. O (Pouco) Fabuloso Destino de João Tamura.

Seu comboinho desfia em teia de aranha. Sapateando, salta a árvore. Come as palavras enquanto boceja. São dez da manhã, ainda. O rádio conta-lhe aqueles poemas que odeia. Parte-o. Aviões de papel. A janela pinta-se de azul. Papel de parede animado.

- Ok, borbotos são apenas bichinhos com medo do mundo que trepam por tua camisola para os abrigares - Disse-me ela.

- Dorminha um pouco, costureira.

Os sonhos fogem rápido
Com monstros debaixo da cama é difícil não se ser mágico
Viver? Acredita, também não sei
Mas a vida é muito mais bela quando tens um chapéu de rei
É a descoberta da adolescência
Entre beijos juntos ao baloiço e foguetes nalguma festa
A minha diva de pantufas, a velhice ganha cor
Com o mundo de Amélie Poulain debaixo da minha cama, amor...
Track Name: 11. silêncio
11. Silêncio.

Enquanto encordava cada uma das Andorinhas, Silêncio pensou na sua mãe. A partir daí não havia volta atrás. Já o havia tentado com balões – uns coloridos que comprara na feira, certa noite com o avô – mas estes não o voaram.

Após adormecer costumava visitar esses tais planetas. Esses tais dos candeeiros. Aqueles a que a Rita chama de estrelas.

Poucos crescidos se lembram de que foram crianças. Envelhecer é vida. Crescer é opção.
Uma tarde, a velhinha disse-lhe que a beleza podia ser medida consoante a força com que esborrachas o nariz contra um vidro.

A pirata maquilha-se todas as manhãs. A sua corrida pelas cearas é planeada até ao mais ínfimo pormenor.

- São mentiras de adultos – Diz-lhe, enquanto as roupas lhe caem aos pés.

Talvez assim o Shire seja mais belo…

O mundo cai-lhe da palma da mão. Parte-se. Inunda a cidade. Montam-se. Casas. Sexo, drogas e música clássica.
Track Name: 12. uma vila chamada gôndola
12. Uma Vila Chamada Gôndola.

- Eu quero viver numa cidade onde se sonha com chuva
Disse-me uma vez um Moçambicano sem pele escura
Eu respondi-lhe que todo o homem é criança para sempre
E se vais dançar com lobos, constrói sonhos a cimento
É a história de uns All Stars, e ela é o meu cinema
Suas rugas são paisagens, maquilhagem é doença
E ela diz que não me entende, enquanto dança naquele quarto
Vazio, após o sexo, ela acende outro cigarro
Mata a fome... Mata-me sem pressa
- Ridículo Zorro de pijama e de gorro na cabeça
- Criança... Sua criança de merda!
- Vê se um dia cresces - Grita, enquanto sai da festa
Será?... Será que ela me detesta?
O monstro faz de conta que não chora enquanto corre na floresta
E eu corro com ele. Brinco à apanhada
Quanto mais longe da vida, mais longe da estrada...
Porque ela traz lembranças e eu não quero mais lembrá-las
Silêncios cada vez mais longos, até que empacotou as malas
Nunca me havia imaginado a pintar a Cidade Branca
E a minha casa da árvore não avista a tua cama
E o Central Park nunca foi tão belo como hoje
Fogo-de-artifício, bancas de algodão doce
A vida é bela, ela ri-se naquele carrinho de choque
Salpicos de alegria, ou te apanho ou tu foges...
Corre... Por favor, vamos para casa
Hoje construí o mundo debaixo da tua almofada...
Track Name: 13. amor para amadores
13. Amor Para Amadores.

A paixão morre aos poucos...
Sem ponto de partida, eu parto e ponto
Final... Na nossa história, os contos
Só serviram para noites bem passadas, pronto
E eu abraço o sono
Entre cores duma cidade e um retrato de um Outono
Quando sopro a vida fora
Da palma duma mão, enquanto a chuva se evapora
E no fim ela cora...
Um dia somos novos sorrindo atrás da gola
Matando-nos com excesso...
Embalados em palavras, enganamo-nos com sexo
Não ouço o que ela diz... Barulho do metro
Até que tudo chegue ao fim, abraçados num regresso...